O tema da pesquisa é a Toy art, Designer toy ou Vinyl Toy, um artefato artístico e mercadológico,
expressivo, contemporâneo, que contém em si influências do grafite, do web design e da street art,
produzido por designers, artistas gráficos e ilustradores. A proposta da toy art está vinculada a
diferentes aspectos deste cenário, como: vida urbana, violência, confronto, humor ácido e dualidade
entre vida adulta e infância. Está contido no conjunto que o trabalho nomeou de Objetos Narrativos
Colecionáveis para Adultos e se destaca do grupo por algumas características, sendo a mais
estrutural, o enfrentamento do mito na cultura pop que a sua narrativa propõe.
O objetivo da pesquisa é primeiramente se aprofundar no conhecimento do universo da criação,
produção e distribuição da toy art, assim como estudar seu diferencial de confronto ao mito dentro
do conjunto dos outros Objetos Narrativos Colecionáveis para Adultos.
A pesquisa propõe ainda um recorte original: a representação de uma manifestação brincante do
carnaval carioca, os Bate-bolas, presentes na periferia urbana da cidade do Rio de Janeiro, que
realizam performances em festejos carnavalescos. O aprofundamento no entendimento e estudo dessa
relação entre as duas manifestações culturais: toy art e Bate-bolas passou a ser um dos objetivos da
pesquisa e talvez tenha se transformado na maior contribuição que esse trabalho tenha a
oferecer.
A tese se justifica pelo olhar da pesquisa em design para um novo objeto em suas dimensões
materiais, simbólicas e utilitárias e por ser um ótimo campo para se problematizar o “Desfocar” e o
“Dissolver” das fronteiras entre o expressivo e o mercadológico, já tão evidenciados na prática da
área da pesquisa em Design. O estudo desenvolvido tem relevância para o pesquisador e sua inserção
profissional; para o laboratório de ensino ao qual está vinculado (DHIS PUC-Rio), para os estudos
sobre narrativa; para a linha de pesquisa Comunicação, Cultura e Arte, pela forma interdisciplinar e
intercruzada como essas subáreas do design se apresentam no objeto de estudo; para o PPG Design da
PUC-Rio, pelo seu foco em pesquisas no âmbito do Design que tenham uma inserção social; para o
ensino de Design, que pode se valer de aspectos técnicos e conceituais para a formação em diferentes
temas correlatos aos artefatos estudados e para a cultura popular brasileira, pela oportunidade de
se dar visibilidade a uma manifestação com tantos estigmas e preconceitos.
O método de estudo histórico, a pesquisa de campo exploratória, com a função de formular questões
que possibilitassem aumentar a familiaridade com o ambiente estudado e clarificar conceitos
relacionados ao campo pesquisado e finalmente, por meio de uma pesquisa-intervenção, uma parte do
trabalho corresponde ao desenvolvimento prático do protótipo de uma coleção de toy art, de forma
colaborativa, junto aos componentes e grupos de Bate-bolas, com a função de conhecer seu trajeto
produtivo e mercadológico e procurar, ainda, validar a pertinência da classificação em projetos e
experimentos.
Coleção Toy Art Bate-bolas.
1 PIRULITO
Criação e produção Eduardo Andrade
A coleção TOY ART MASCARADOS tem duas séries sobre os Bate-bolas do rIo de Janeiro: o PIRULITO,
formato de fantasia das origens da manifestação, mas ainda encontrada hoje em fantasias individuais
e o RODADO SAIA, modelagem mais contemporânea que substitui o macacão por uma saia bufante. Nesta
exposição, todos os toys customizados são da série PIRULITO, este primeiro exemplar é uma
customização que tenta retratar de forma mais fidedigna o tipo de máscara, o padrão listrado do
macacão. as cores vibrantes da roupa, a bexiga de boi usada como bola e a peruca pequena da fantasia
original. A máscara similar à maquiagem do palhaço é que originou o segundo nome da fantasia: Clóvis
- uma corruptela da palavra Clown, como era chamada a fantasia pelos imigrantes de língua inglesa e
alemã.
2 TRADIÇÃO/INOVAÇÃO
Criação e produção - Marcelo Índio
Esta customização fala de como as relações entre tradição e inovação na cultura popular funcionam de
uma forma dinâmica. O desafio é como não enrijecer os processos com preocupações estritamente
museológicas e folclóricas, mas como também não perder as memórias e os elos históricos ao minimizar
o papel da tradição. Nesta peça, se retrata a máscara "Killing" que traz esta palavra escrita e os
coletes com espelhos e lantejoulas que é uma fantasia já dos anos 1960/70, estando,
cronologicamente, entre os pirulitos originais e os formatos atuais. No chão, inúmeras máscaras que
representam outros tantos desenhos, anteriores, simultâneos e posteriores à máscara retratada,
lembrando das muitas mudanças.
3 INDIVIDUAL/ COLETIVO
Criação e produção - Luciano Guimarães
Enquanto as manifestações originais eram individuais - e se mantiveram assim até os anos 1980 -,
hoje, existem turmas que utilizam os mesmo modelo de fantasia com um único tema. Os integrantes saem
juntos, participam coletivamente da produção e se unem para manter a sustentabilidade do grupo.
Aqui, a customização é de um líder de turma e coloca em seu toy o nome de sua turma "ANIMAÇÃO". No
chão, outras turmas estão listadas para ilustrar o tipo de nomes que geralmente remetem a emoções e
gírias locais. Atualmente, são mais de 500 turmas cadastradas e as turmas podem ter de três até uma
centena participantes.
4 CENTRO/ PERIFERIA
Criação - Buda
Produção - Humberto Barros
As manifestações dos Bate-bolas acontecem nos bairros periféricos do subúrbio da cidade do Rio de
Janeiro. Muitas vezes, esses bairros foram abandonados pelo estado e estão submetidos à violência e
à precariedade de transporte e rede de serviços. Assim, o turismo nacional e internacional e até
mesmo moradores de outras zonas não conseguem ver as perfomances dos Bate-bolas. Neste toy, na
frente, estão desenhados os pontos turísticos típicos da cidade. Atrás, menos visível, estão
representados a favela e os bairros onde os bate-bolas permanecem inacessíveis.
5 CRIME/ BELEZA
Criação - Carpa
Produção - Marcely Soares e Eduardo Andrade
As manifestações dos bate-bolas são estigmatizadas pela relação com o criminalidade - assim como
aconteceu com o samba e o funk -, por causa de sua proximidade com milícias, narcotráfico e membros
da polícia e das forças armadas nas periferias.
Aqui, denunciamos que, se o abandono do estado deixa os moradores das periferias sujeitas a esses
problemas sociais, eles não podem ser estrangeiros às suas expressões culturais locais. A frente do
traje está a cor do gráficos de carnaval e, na parte de trás, uma sombra desses desafios. No asfalto
escuro da periferia, vemos uma sombra colorida, projetada lembrar que o resultado final desse choque
é positivo.
6 MEDO/DIVERSÃO
Criação e produção - Marcely Soares
As relações com o crime acabam afetando uma questão central nas manifestações de mascarados no
mundo: a brincadeira de assustar. A ideia de se mascarar envolve, desde o início, o anonimato da
identidade do brincante, mas também, uma espécie de "pique" (jogo de perserguição) e encenação para
gerar medo. No entanto, por conta do preconceito da associação com a violência, têm-se evitado a
brincadeira de assustar e retiram-se os temas mais soturnos, além de substituir a bola por uma
sombrinha. Aqui, ilustrações misturam medo e diversão como dois lados de uma experiência delicada,
por isso, a simulação de um boneco de porcelana, frágil, mas valioso.
7 LUXO/POBREZA
Criação e produção - Gilson, Grupo Furiosa
A gliteragem (cobertura de áreas desenhadas com purpurina) é uma técnica muito usada nas fantasias
de Bate-bolas e que valoriza ainda mais a fantasia pela complexidade da artesania. Neste toy, todo
coberto por essa técnica, o brilho - que remete ao luxo e a ostentação - deixa um rastro no asfalto
dos bairros pobres para nos ajudar a refletir sobre a tensão entre os valores estéticos de beleza
atribuídos ao luxo e a estética das periferias. Um famoso carnavalesco brasileiro, Joãosinho Trinta,
ao justificar o uso de luxo em seu desfiles de escola de samba alegava: "O povo gosta de luxo, quem
gosta de miséria é intelectual." A afirmação do artista não é simples nem deve se encerrar em
aceitações puristas. Entre a consciência de classe, uma problematização do capitalismo de consumo e
o sequestro da crítica estética pelas elites, muita coisa precisa ser debatida nesse tema.
8 RECICLAGEM/INOVAÇÃO
Criação e produção - Priscila Andrade e Lilly Viana
As fantasias dos mascarados brasileiros são produzidos durante todo o ano, mas duram apenas os
quatro dias de carnaval. Diferentes das fantasias das manifestações da Europa, aqui o uso se dá no
verão e são usados materiais e técnicas de modelagem e costura que impedem a lavagem, o que torna o
traje inutilizável em poucos dias. O que é um problema sobre a perspectiva da sustentabilidade
econômica e ambiental, permitiu a sustentabilidade social do evento marcado pela grande
experimentação de técnicas que mudaram muito a fantasia. O toy é customizado com restos de vários
materiais usados nas fantasias e até luzes de LED que já foram associadas à muitas fantasias, como
se reciclasse a miríade de materiais já descartados.
9 SUSTENTABILIDADE E INDEPENDÊNCIA
Criação - Humberto Barros
Produção - Humberto e Eduardo Andrade
Com custos altos de produção e uma cadeia produtiva que consome todo o ano na confecção de
fantasias, produtos licenciados e acessórios, as fontes de financiamento ainda são comunitárias e
alternativas - embora, o estado já tenha dado algum incentivo no passado recente. No entanto, o
festejo, lida com várias marcas e produtos de mercado que se beneficiam do consumo dos integrantes e
do público em geral, mas as turmas não recebem apoios ou patrocínios como os desfiles de escola de
samba. Cervejas e carnes dos churrascos, tênis caros nas fantasias, tecnologia gráfica dos
processos, mídias sociais na divulgação e a estigmatização da mídia de massa, fazem esse toy uma
provocação.
10 VISIBILIDADE/ INVISIBILIDADE
Criação - Aline Jobim e Gamba Junior
Produção - Gamba e Humberto Barros
É impossível falar de invisibilidade com fantasias deste tamanho, quantidade de cores, turmas e
integrantes. Mas o festejo segue um mistério para muitos brasileiros. Como encontrá-los? Onde eles
saem? Em que dia do carnaval? Para um morador do subúrbio a rede local de contatos pode lhe levar a
saber de um saída de turma ou encontrar alguma ao acaso nas ruas do bairro. Mas para um morador de
outra localidade, ainda que da própria cidade, pode ser difícil descobrir como vê-los. Enquanto os
blocos de carnaval são cadastrados e divulgados pelo estado, as saídas de Bate-bolas ainda são pouco
visíveis para muita gente. Aqui, o toy transparente deixa atravessar parte da luz e outra parte é
bloqueada: visibilidade e invisibilidade se alternam.
11 MASSIFICADO/LOCAL
Criação e produção - Felipinho Tamu-Juntos
Outro aspecto complexo nas manifestações de Bate-bolas é a escolha de temas que serão os enredos das
fantasias ou símbolos da própria turma. Personagens da indústria de massa e muitos da cultura dos
EUA são usados para decorar as fantasias levando a uma polêmica quanto a autenticidade da expressão
como uma manifestação da cultura popular brasileira. Neste toy, vemos o Zé Carioca, um personagem da
Disney que homenageia o Brasil com um papagaio que representa um cidadão carioca. Ao decorar a
fantasia deste toy-art, o tema evoca todas essas contradições - é dos EUA, mas é sobre o Brasil, é
do Brasil, mas é sobre os EUA. Hoje, já é claro que este personagens e outras diversas ações do
governo dos EUA não foram apenas ações de expansão de consumo de produtos culturais, mas também uma
estratégia para políticas neocoloniais denominada oficialmente de "Política da Boa
vizinhança".
12 HOMENAGEM AO MÉXICO
Criação e produção - Eduardo Andrade
Esta customização foi planejada para ser exposta primeiramente no México no congresso MX DESIGN 2019
- Identidades e transições. como os Bate-bolas têm uma relação muito dinâmica com mudanças e
inovações de sua própria identidade como festejo - além da problematização da identidade do
brincante que qualquer uso de máscaras propõem -, essa customização é uma homenagem a cultura
popular do México e o dia dos mortos. Como as fantasias hoje se apropriam de temas internacionais
como personagens da Disney ou da cultura de outros países e, a cada ano, têm que propor novos
enredos, muitas turmas já saíram com o tema dos dias dos mortos do México. Tanto pela beleza dos
elementos estéticos como pela pregnância deste festejo no sociedade brasileira. O toy, mistura,
então, como muitas fantasias já fizeram, as caveiras mexicanas com os Bate-bolas brasileiros.